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  Inhuma: ave em extinção é encontrada em MG
 

A inhuma é também conhecida por anhuma, anhima, inhaúma, alicorne, unicórnio, cametau, camixi, cauintã, cuintau, cavintau, cavitantau

Geraldo Gentil Vieira

10 de Dezembro de 2004

Tenho feito grandes descobertas ao longo do rio São Francisco. Recentemente descobri que a inhuma - a espécie de maior porte - está voltando a um antigo habitat, a lagoa de Inhumas, em vôos migratórios, vindo não se sabe de onde e indo para onde ninguém sabe. A ave menor sempre existiu por lá. Esta boa notícia foi-me dada por João Vieira Simões e Lindoalmir Dornelas, que possuem propriedades às margens da paradisíaca lagoa. Segundo Juvêncio Rodrigues Nunes, 84, tradicional fazendeiro na região, na década de 80 a extensa lagoa - tem 1.000 hectares de superfície quando cheia e uma ilha ao meio - hoje em fase de assoreamento, atraiu a pesquisadora suíça Anita Studer, que se embrenhava pelos juncos até a cintura, mas não temos registro das suas pesquisas. Pretendo estudar os hábitos e rastrear a rota dessa ave rara e pródiga que retorna ao lar e introduzí-la em Marins, uma RPPN que tenho ali próximo, constituída de brejo e mata de topo interligados por corredor ecológico.

Nasci em Iguatama, onde se localiza a lagoa de Inhumas, uma das maiores lagoas-berçários das cabeceiras do rio São Francisco. Sempre me senti instigado a conhecer essa ave. Em Contagem, na Grande Belo Horizonte, existe um criatório de aves silvestres chamado Crax. Entre as aves ali criadas, está a inhuma. O fato é que o mais novo cadastro da Fundação Biodiversitas, o "Livro Vermelho" da fauna em extinção em Minas Gerais, não faz menção a esta ave. Péssimo sinal: ela já deve ter desaparecido de Minas há muito tempo. Hoje é vista apenas no Pantanal.
Na “Carta de Iguatama”, publicada por ocasião da Expedição Américo Vespúcio, reivindicamos a APA das Cabeceiras ou das Dez Cidades-Mães do São Francisco, visando proteger santuários ecológicos como o da lagoa de Inhumas.

Relatos de St. Hilaire e Pohl
St. Hilaire assim descreveu a rara e bela ave dos pântanos, brejos e banhados em "Viagem pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais":
"Tendo percorrido durante duas léguas avistamos a igreja paroquial de Inhaúmas ou São Tiago de Inhaúma (subúrbio do Rio à época), pequeno edifício construído isoladamente sobre uma plataforma de onde se descortina um panorama muito agradável. O nome de Inhaúma não passa, provavelmente, duma corruptela de Inhuma, que se dá no Brasil à ave curiosa que os naturalistas chamam Palamedea cornuta. Como várias localidades têm o nome de Inhuma ou As Inhumas, é provável que tal ave, hoje em dia extremamente rara, fosse outrora muito comum; mas foi com certeza dizimada com o fito de obter-se essa saliência córnea que trás à cabeça e à qual se atribuem virtudes imaginárias."
Johan E. Pohl, outro naturalista minucioso, em agosto de 1820, percorrendo o vale do Jequitinhonha na altura de Minas Novas (17° 12' e 42° 35' LS) e altitude de 692 metros, deu de frente com a inhuma:
"A uma légua de distância desse rio, encontramos vários lagos de pequenas dimensões, chamados lagoas. Na maioria estavam quase inteiramente secos. Em sua superfície, passeavam tranquilamente aves aquáticas em grande número. Aqui vimos também a anhinga (Palamedea cornuta), uma das maiores aves aquáticas, que dificilmente pode ser atingida a tiro. Excede em tamanho ao ganso. Tem um chifre na cabeça e dois esporões córneos em cada uma das asas. Diz-se que faz uso dessas armas para defender-se das cobras".
A mais longa e completa descrição desta bela ave li em "Aves do Brasil", de Augusto Ruschi, eis um resumo: “Inhuma é uma ave da ordem Anseriforme, da família Anhimidae, espécie Anhuma cornata. Seus nomes comuns são anhuma, anhima ou inhuma, e em inglês tem o nome de Horned Screamer. Tem como medidas: comprimento 890mm; asa 580; cauda 293; bico 55; tarso 110; altura total (do pé à crista) 820mm; altura da perna 350mm; altura do pé ao dorso: 590mm.
Ocorre ao Norte e Centro do Brasil, possui colorido geral bruno-denegrido e preto, exceto o abdome que é branco. As penas da parte anterior e da cabeça são ondeadas.
A Chauna torquata denominada anhumapoca, tachã e chajá, ocorre no sul e oeste do Mato Grosso e São Paulo até a Argentina. É semelhante à precedente, porém sem o chifre ou esporão da testa. Seu canto é onomatopéico, repetindo as sílabas tachã, tachã! e chaá, chaá! pela madrugada e ao escurecer. Nidificam nos pantanais, em lugares de difícil acesso. O esporão frontal da A. cornuta é tido como medicinal pelos nativos da Amazônia.
É também conhecida por anhuma, anhima, inhaúma, alicorne, unicórnio, cametau, camixi, cauintã, cuintau, cavintau, cavitantau".

Beleza e exostismo
Devido à beleza e exotismo, a ave é homenageada em topônimos, versos e música: o compositor Tavinho Moura ponteia na sua viola mineira o canto da inhuma, mas alguns afirmam que ela só emite grunhidos e pios. A tradução do seu nome inglês indica sua índole: chifruda gritadeira, ou algo assim.
A música "Alma pantaneira" de Leo Almeida diz que "a inhuma com seu canto enche de fé e encanto a alma do pantaneiro".
E que pena, está presente na alta cozinha internacional junto às caras trufas e algo mais: não estaria aí mais uma causa da sua extinção, o tráfico de aves? Não estaria ela sendo substituída pelo sofisticado faisão?:
"...Se la envisca com foie gras, se la inhuma es una ave sobrecargada de grasa, se la sumerge picada em salsa oscura, se la desposa com hortalizas enmascaradas com mayonesa... !Pelusa de los picadillos, de las laminillas, de los recortes, de las peladuras de trufa!? Es que no es posible amarlas por sí mesmas?". De: www.guiamiguelin.com. Que traduzimos: "...Se a besuntamos com foie gras [fígado de ganso], se a inhuma é uma ave bastante gordurosa, se a refogamos picada em salsa escura, se a juntamos com hortaliças banhadas com maionese... A penugem nos pedaços, nas lâminas, nos recortes, nas esfoladuras das trufas, dos cogumelos?! E não será possível amá-las por si mesmas?"
Quem sabe a revitalização do São Francisco destinará recursos para pesquisas e o resgate de tão rico patrimônio faunístico da região?
(*) Geraldo Gentil Vieira é engenheiro agrônomo e faz parte do Centro de Defesa das Nascentes do Rio São Francisco-CD Nascentes-RSF
Iguatama - MG

Fonte:FOLHA DO MEIO AMBIENTE