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Um dia no PIPES
 
 

Geraldo Gentil Vieira


Um silvo corta os ares e reverbera nos barrancos: o PIPES acaba de atracar em um novo porto. O comandante – é assim chamado amigavelmente por todos desde a largada - está cansado, foi um dia de desvios de troncos flutuantes, raízes e pneus como se estivesse esquivando-se de icebergs num verdadeiro sem-fim. Ele também mantém contatos telefônicos para o deslocamento da carreta em terra. Desde a largada o PIPES tem sido o nosso lar o dia todo, às vezes por dez-doze horas seguidas. Olhos fixos na amurada, lá está um casal de namorados que olhasurpreso tão inesperada e inusitada visita. O sol se põe no horizonte, sempre um crepúsculo superando o outro em beleza. Ninguém se levanta, à espera da ordem de descida. Dois minutos depois, onde estão eles, um é o Calderón, olha lá vai ele com a sua cabeça envolta na toalha ou camiseta branca à moda árabe, vai apoiado num cajado, torceu o pé ontem, ah, estão todos já subindo as escadas do cais, encurvados, as mochilas nas costas, esgotados. E lá se vão os primeiros cumprimentos, “oi como vai, onde é o hotel, que cidade mais bonita, como você é linda!”, são assim as chegadas a cada cidade.
“Como vocês conseguem passar tanto tempo sentados em um barco o dia todo, não é muito monótono, o que fazem rio abaixo?”, perguntou-me alguém em terra firme, entre assustada e curiosa ao ver chegar um grupo de pessoas em tudo estranhas, entrando pela porta dos fundos da cidade e saindo um ou dois dias depois também pela porta dos fundos. Não, não é bem assim, chegamos pela janela panorâmica da cidade.
Uma van encosta, entram apenas os que conseguiram ficar para trás, os demais já chegaram ao hotel. Outros dez já estão na pracinha, o papo corre solto: “Vocês demoraram a chegar, o que houve?” “Ah, sim, muita água no rio, viajamos na crista da onda, muitas toras e árvores boiando, é preciso cuidado”. Tudo bem, isto é, tudo mal: “A audiência ficou para amanhã a noite, o prefeito está viajando, Juquinha vereador também. Mas a dona Isabel, que sabe e cuida de tudo, está preparando uma audiência ambiental que será a maior de todo o vale!”.
Na verdade são pequenos os dias a bordo, eles voam. É muito grande a diversidade da paisagem e a curiosidade despertada atrás dela e do mundo rural, das aldeias e povoados das margens. Apreciamos o desenrolar do mundo natural, e registramos constrangidos e revoltados as agressões e violações. Em qualquer direção que se olha do barco de visão panorâmica, existe algo de interesse, oculto ou não. Temos que entender o processo que de fato os olhos vêem, e pesquisar, debater a bordo ou nas audiências o que eles vêem e não vêem. Navegar é uma forma de pensar.
Dois dias depois.
Ainda está escuro no horário de verão e todos já estão de pé, dirigindo-se para o café da manhã. Começa o vai-vém de sempre, as mesas enchem e esvaziam-se com a rapidez de bandos de pássaros. A parafernália vai tomando a recepção do pequeno hotel. Mas não por muito tempo, é preciso estar no cais bem cedo, ou correr o risco de ficar para trás. Alguém lá fora soa um chocalho surdo de bronze pela calçada, pode haver algum retardatário, o alerta é geral. Como sempre, isolados ou em grupos, os vespucianos vencem a distância até o porto, as pesadas mochilas sobre as costas, envergados, conversando em alta voz, ou cabisbaixos, calados, um vai apoiado no seu cajado, a noite foi mal dormida com pé doendo muito e já terá início mais uma jornada. O vespuciano continua de cincerro à mão, ribombando pela rua deserta. O calçamento é de pedras irregulares e lisas, escorregadias, chovera pela noite afora até quase o raiar do sol. A turma pisa quente e não cambaleia, o PIPES não espera.
Um silvo corta os ares. O comandante Murilo e sua tripulação estão a postos. Murilo como sempre está em roupa branca de gala. O barco brilha e rebrilha nas cores vermelha e branca sob o claro sol da manhã. As bandeiras tremulam. Tudo está limpo e higienizado. Será um dia quente, uma boa viagem se vislumbra.
Um a um vão saltando ao convés os expedicionários. Beijos e despedidas. O guizo é atrelado à frente na proa a esquerda e soa mais uma vez; à direita está o timoneiro junto à minúscula imagem de São Francisco, tendo ao lado o prático Luiz Simas. O sonho dele é conhecer Juazeiro. O do marujo Aldenor é ver sempre vivos os rios em que navega; ele confere os banheiros, a geladeira, os armários, a bomba, a água potável, tudo em ordem. As lixeiras aqui e ali, nada é lançado no rio.
Em toda expedição existem os que conferem e os que são conferidos: “Está faltando alguém? Quem estiver ausente levante a mão”, brinca. “Sim, olha ele lá, vem correndo esbaforido, é o Calderón com seu cajado e a camiseta branca ou toalha a moda árabe na cabeça!”. Agora já não falta ninguém, pode ser dada à partida. São recolhidas as âncoras e ligados os motores. O ronco ribomba nos barrancos, ecoa e volta. O rio está espelhado, é uma lâmina única e dura, o rio está parado, o barco vai fazê-lo andar daqui a pouco.
Outro silvo grave corta os ares. O PIPES dispara, não com rumo norte, mas segue para sul, de onde veio. É sempre assim, um sustinho naqueles que estão na balaustrada, apinhada, mãos e lenços acenando, adeus! Então o barco retorna garboso, escovado, parece sorrir, em disparada, agora o ronco dos motores no seu pó-pó-pó, no seu tu-tu-tu se mistura ao som da sirene e do adeus. Fica para trás mais um porto, fica para trás a saudade, mãos que acenam, um dia voltarei.
O estreito corredor está livre, mas dos bancos e de debaixo deles saem coisas para os lados, o barco a cada parada fica mais cheio: sacolas, artesanato sem conta, frutas da estação, biscoitos, rapadura, queijo, paçoca, cuscuz – a esta altura todos já ganharam uns quilos a mais, não se preocupe, o PIPES não vai naufragar – e gente, gente para lá e para cá. Só faltam mesmo o cachorro e o papagaio, assim mesmo porque é proibido levar animais a bordo. Um e outro ressona, a ressaca vai brava, a noite foi criança, mas os sacolejos do barco e o agito curam qualquer mal-estar. O trabalho exige atenção, para isto estamos aqui. Bebida a bordo? Nem pensar, apenas em terra, após os compromissos oficiais.

Um vaivém sem fim tem início, desde a partida até o fim do dia, ninguém é capaz de ficar quieto por muito tempo. Quem está mais para a proa, quer ir lá atrás beber água, um cafezinho, uma fruta; quem vai atrás levanta e vão ter a proa, olhos na imensidão das águas, na exótica paisagem ribeirinha. A rotina do dia a dia só é quebrada quando algum convidado itinerante é recebido a bordo. A curiosidade e a troca de informações são recíprocas.
Na primeira mesa de campanha à esquerda seguem dois vespucianos: Geraldo Gentil e Enio Fraga. O primeiro representa a Codevasf, e tem diante de si mapas e mais mapas, um rolo deles, fora os que foram atrelados no canudo pendurado nos escaninhos do teto, junto aos coletes salva-vidas. Vestindo sempre sua roupa safári cáqui, chapelão de abas largas (ele diz que é promessa), de vez em quando se levanta, toma seu binóculo e observa o mato, o pé de serra, e sabe-se lá mais o que. O segundo representa a Embrapa, e não desgruda do GPS a não ser quando a canícula aperta: então vai até a proa, faz uma pose, olha para cima, dá uma alta gargalhada, e tchibum!, Lá vai ele em largas braçadas, o PIPES é incapaz de alcançá-lo; retorna contra a corrente, e de um impulso ganha a proa, está a bordo outra vez o herói do dia.
Mais atrás está o Calderón, analista de sistema e encarregado dos arquivos fotográficos digitais da Codevasf, o mais alegre e extrovertido dos expedicionários. Um banco atrás está lá os dois Sérgios do Ibama. Como um dos geólogos da expedição, um deles, o Moreno, repete incansável que as veredas baianas do Além São Francisco não chegarão a 2010 e com elas as nascentes. Daí até seu restaurante em Barreiras é um pulo na estreita vereda: ele sabe preparar a melhor moqueca do velho oeste baiano.
O outro Sérgio, Ferreira, o agrônomo, converteu-se não ao budismo, mas a uma verdadeira cruzada contra os agrotóxicos, os venenos agrícolas em toda a bacia. Outro programa para a bacia que pode ser desenvolvido é o incentivo ao cultivo orgânico, a bioagricultura, sem agrotóxicos, tanto familiar quanto empresarial. Quer desenvolver um trabalho para a instituição do “receituário agronômico” em todo o vale. Sem ser eco chato, seu plano é implantar uma rede de centros de reciclagem de embalagens de pesticidas, uma praga que é vista rolando nos arredores das lavouras, indicando o despreparo, ignorância, irresponsabilidade e falta de compromisso do próprio agricultor. Trabalho de Hércules, mas chegará lá.
É ele o chef do departamento que funciona na parte posterior do barco – olha ele lá junto à Nilde, a advogada que trocou lá dolce vita de Brasília pela rude expedição -, dando início ao cafezinho, uma instituição nacional. Da dupla saem os melhores pratos da culinária maranhense e mineira, ela é irmã do proprietário do barco que ora desce. Aposentada do TCU está tão à vontade aqui quanto em Brasília onde vive, ou nas ilhas gregas ou na sua tocantinense Filadélfia e na maranhense Carolina, vizinhas de frente no rio. Ela está de bem com a vida, com todos, em qualquer lugar. Uma expedicionária pioneira, uma vespuciana de valor, nesta rota ambiental e peregrina, sem luxo e ostentação, a peregrino número um do Caminho de São Francisco. Seu relatório de bordo é um registro fiel das atividades diárias da expedição e impressões da viagem.
O José Carlos vai até ao fogão dar uma olhada, uma manhã inteira já rolou com as águas, um aroma de peixe a lá PIPES com ervas de cheiro domina os ares. Mas alguém lhe chama a atenção para a paisagem e ele volta num salto para suas anotações e sua máquina digital, é um pesquisador nato, vai ganhar os troféus Vespúcio e Caminha do ano.
O aroma da comida prestes a sair continua incomodando, domina a atmosfera do barco, pode sair pelos ares e chegar até a margem onde pessoas aguardam para a travessia. O vaivém se intensifica, é só uma olhadinha, “sim, uma olhada tudo bem, não faz mal nenhum, daqui a pouco estará na mesa”, avisa Niude com voz suave.
E que mesa, a peixada, as saladas, as frutas, o molho. É formada a fila, é preciso repetir o prato, nova fila vai se formando. Um manjar franciscano, nem tanto, o santo era frugal, fazia jejum, abandonara os prazeres da carne e dos bons vinhos, foi um místico, a caridade foi seu mundo, e os pobres e miseráveis, seus amigos. Os pobres e miseráveis do vale sãofranciscano, vão passando por nós, uma a uma suas cabanas se avizinham e se distanciam; é possível ver seus pés descalços e suas calças rotas, seu olhar que incomoda. “O que podem técnicos bem intencionados fazer por eles?” É a pergunta para a qual ainda hoje não há resposta, simplesmente porque ninguém quer ouvi-la. Até quando ela baterá em ouvidos moucos?
Onde estão as duas biólogas, a Alexandra e a Michele, ou estão contando suas aventuras ou estão classificando suas plantas ribeirinhas. Ah, sim, estão na proa tomando sol, ambas com bonés azuis, o sol forte já vai pelo meio do céu. De tempos em tempos tomam um caneco e um termômetro e fazem coleta de amostras de água para análises física e química, a cargo do Corsário. O geólogo Ernesto continua medindo seu comprido rio e analisando as poluídas águas.
Como o Sérgio Moreno e o Ernesto Ferrante são geólogos (as pedras deste já adernam o barco), deles virão grandes pesquisas, é o que esperamos ao vêlos tão empenhados. E sendo o primeiro dono de restaurante em Barreiras, corre o risco de receitas de iguarias virem misturadas com relatos de bordo.
Sebrae a bordo, lá está o Geraldo Guedes, de Montes Claros, gesticulando e traçando trilhas e mais trilhas eco turísticas, em meio a mapas e folders. Um vespuciano de carteirinha de larga visão.
Os demais só sabem fazer café e olha lá. Pelo que meus pais e avós diziam, “um bom café deve ser preto como a noite escura sem estrelas, quente como o inferno dos brutos, e forte como a fé dos puros”, eis a receita. E até pode sair um cafezinho dos bons, “café doce não é café’, eles diziam, ‘prefiro comer meu doce de leite com queijo, e aí sim, tomar meu cafezinho”. E assim chegamos a um caso mineiro: dois compadres mineiros vão até a cozinha e enveredados na prosa, colocam para ferver a água, vem o açúcar antes das borbulhas, quando o outro pergunta: “pó pô o pó?”, ao que o outro responde: “pó pô”. E junto com a piada um aroma de café forte e quente vem com a brisa e faz cada um descobrir que a tarde vai pelo meio. É a hora do lanche, dos biscoitos, das frutas e sucos da terra, da rapadura e do queijo. Nada de transgênicos empacotados. De novo a fila para não perder o costume, ninguém é de ferro.
As ausências sempre comentadas são a de Martha Pedrosa e Nurimar Alice, empenhadas no apoio em terra, até aqui ainda não entraram no PIPES. Alguém as ouviu dizendo que esta peregrinação é uma prévia para o Caminho de Santiago.
O papo vai animado e polêmico, mas foi interrompido pelo cineasta porto-riquenho Diego de la Texera, que passa a narrar mais um emocionante capítulo do seu eterno e inacabado filme “Vida e morte de Sandino”. Não vejo a hora de ver a saga do herói nicaragüense, assim como outros épicos de valor como “Lampião rei do cangaço”, e peças como “Vida e morte Severina”. Mas logo, logo, ele se levanta do chão no corredor onde tem o costume de sentar-se com a sua minúscula sunga, vai a proa, e de um salto, ganha o teto do barco onde os documentaristas fizeram sua trincheira desde a largada. Dali eles tem os melhores ângulos, o Texera, o Roger Blei e o Arimathea.
Exatamente embaixo daí vai a equipe de jornalistas – M. Larcher, F. Zarur e B. Radicchi - que produzem resenhas diárias da viagem, e que podem ser vistas no site www.americovespucio.com.br .
Rita Ferreira coordena full time pelo seu indefectível celular as operações de apoio em terra do “cerimonial”, como chamamos jocosamente a equipe formada pelo alagoano Dório Camelo, Flor Maria e o Maurício Leão, o maior trekker que conheço. Eles fazem o percurso por terra para reservas de hotéis e contatos com os prefeitos e lideranças, para as audiências públicas, felizmente os problemas de traslado acabaram. Em terra também seguem o grupo folclórico do Luiz Pinto Marise e o grupo de teatro da Graça Melo. A expedição é dura, tanto na terra quanto nas águas.
E lá está ele, meu amigo Aldenor, o marujo, contando lá no fundo do barco suas peripécias maranhenses, que são muitas as aventuras do fleumático e educado homem dos rios. Uma equipe de primeiro mundo a tripulação do PIPES.
Uma brisa sopra de barlavento, refresca o ambiente, as cortinas azuis estão suspensas e avistamos de camarote a ampla paisagem das águas e a cordilheira no fundo; o barco é climatizado naturalmente, mas o calor é forte lá fora. Nesta época do ano esta região é caracterizada pelas temperaturas elevadas que superam a casa dos 30°C e pelas frentes frias que fazem desta uma estação chuvosa.
A noite vem chegando ao avistar mais um porto. Um dia inteiro de viagem e desvios de tocos, troncos, aguapés e lixo, muito lixo. O capitão fez um bom trabalho. É noite feita quando atracamos em um novo porto, São Francisco, vizinha a Januária. O tempo está úmido e o ar parado, o céu escuro. A perereca coacha grosso na fresta da escadaria, vai chover não demora.

Fonte: "Como vi o Rio São Francisco 500 anos após Américo Vespúcio-Primeira viagem fluvial de Iguatama ao oceano Atlantico- Diário de Bordo". 2001. 533p.